Imortal da Academia Brasileira de Letras, Secchin analisa obra de João Cabral e recebe homenagem
Por Salus Loch
O crítico, poeta e imortal da Academia Brasileira de Letras, Antônio Carlos Secchin, levou excelente público ao Teatro Olga Reverbel – Multipalco Eva Sopher, na noite de 5 de março, para a palestra “Morte e Vida Cabralina”. Promovida pela Associação dos Amigos da Biblioteca Pública do Estado (AABPE), pela Secretaria de Estado da Cultura e pela Biblioteca Pública do Estado, a atividade reuniu expoentes das letras e representantes do setor cultural gaúcho em um encontro voltado à valorização do patrimônio literário nacional.
O encontro se apresentou como uma rara oportunidade de mergulho em um dos livros mais estudados da literatura brasileira: “Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto, em honra aos 70 anos da obra. O texto, aliás, segue atual ao narrar, em forma de poema dramático, o percurso de Severino, retirante do sertão que caminha em direção ao Recife em busca de uma vida menos dura. No texto cabralino, a viagem é também um inventário do país: a fome, a desigualdade, a morte cotidiana e a persistência teimosa da vida.
A abertura formal da noite ficou a cargo da diretora da Biblioteca Pública do Estado, Ana Maria de Souza, que deu as boas-vindas em nome da instituição. O presidente da AABPE, Alcides Mandelli Stumpf, reforçou o papel da Associação na preservação do patrimônio e na promoção de ações culturais que formam leitores. Também saudou o público Gilberto Schwartsmann, professor emérito da UFRGS, presidente da Orquestra Sinfônica e representante da diretoria da Associação.
Antes da conferência, a noite ganhou contornos de celebração com uma sequência de homenagens. Secchin recebeu a Medalha do Centenário do Prédio da Biblioteca Pública do Estado, concebida pela AABPE para reconhecer expoentes e parceiros da cultura e das artes — distinção que já contemplou nomes como o presidente da ABL, Merval Pereira.
A palestra
Com a plateia atenta, Secchin conduziu a análise de “Morte e Vida Severina” dentro do conjunto da obra de João Cabral, tratando de seus principais aspectos formais, temáticos e históricos. O tom, no entanto, não se restringiu ao acadêmico: o palestrante compartilhou um depoimento pessoal sobre a amizade com o poeta, abrindo uma fresta humana no rigor da arquitetura cabralina. E foi justamente nessa chave, a do bastidor e da intimidade intelectual, que trouxe uma leitura preciosa sobre o destino do livro dentro da própria trajetória do autor.
Segundo Secchin, João Cabral sempre reagiu de forma ambígua ao sucesso de “Morte e Vida Severina”. “De um lado, ele reconhecia que esse título contribuiu enormemente para a projeção de sua obra. De outro, achava que, exatamente por isso, o conhecimento do restante de sua produção seria prejudicado pelo grande sucesso de um único livro. Acredito que ele tinha razão, porém, exagerava nas críticas. Era como se, indiretamente, convidasse o leitor a conhecer seus outros livros, supostamente melhores”, conclui Secchin.
A programação ainda reservou um momento de forte impacto cênico: Zé Adão Barbosa interpretou trechos da obra de João Cabral, devolvendo à palavra o seu corpo — ritmo, respiração e lâmina — e fazendo o teatro ouvir, de novo, o caminho áspero do retirante.
Saiba mais
Secchin, nascido no Rio de Janeiro, em 1952, é professor titular de Literatura Brasileira da UFRJ desde 1993 e membro da ABL desde 2004. Autor premiado, também organizou antologias de nomes como Cecília Meireles, Mário Pederneiras e do próprio João Cabral de Melo Neto. Em Porto Alegre, trouxe não apenas a leitura de um clássico, mas o gesto de recolocá-lo em circulação: como se, ao iluminar a obra mais famosa, acendesse também o convite — cabralino, indireto, exigente — para que o leitor volte ao restante da produção do poeta.